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Sobrevive-se

Sobrevive-se

13
Mai24

Já basta sustentá-los.

Costa

Em entrevista de hoje, figura presumivelmente destacada do PAN (cabeça de lista dessa agremiação às próximas eleições europeias) afirma que “existe o direito ao protesto. Não faz sentido medidas desproporcionais para os ativistas climáticos. Sentam-se na estrada e são arrastados”.

Isto a propósito dos crimes - pois que disso potencial e substantivamente se trata, mesmo que não integrando de forma imediata o catálogo dos ditos em direito penal - perpetrados pelo que por aí se chama reverentemente de "activistas climáticos". As criaturas, que nas palavras desta sumidade do PAN sofrem de "ecoansiedade", exercem então, muito legítima e naturalmente perturbadas, um mero direito. E isso de cortar a circulação de ruas, avenidas, acessos, o que seja, até está muito bem. 

Ou seja, provocar - na verdade, agravar o que já o é - o caos no trânsito, entre outras práticas cívicas a que se dedicam abnegadamente esses ansiosos (ansioses, decerto) acabando, aliás, por com isso aumentar a emissão de poluentes e o consumo de petróleo, impedir, potencialmente pelo menos, o cumprimento de compromissos importantes por parte de cidadãos obedientes e pagadores de impostos, causando-lhes com isso danos relevantes, ou até levar à morte ou causar lesões agravadas por impedimento do atempado acesso a cuidado médico, não é mais do que um legítimo ventilar de uma ansiedade. E é assim desproporcionado arrastar - tremenda sevícia! - essas criaturas encharcadas de egoísmo, e embrutecidas por ensinamentos de desobediência objectiva e metodicamente ministrados por organizações subsidiadas pelo orçamento do estado.

Da densa cabeça do cabeça de lista foram então também derramadas para nossa ilustração outras "ideias" de questionável lucidez (seguramente um conceito fascizante e que se impõe cancelar) e que não se vê possam ter outra proveniência que não a massa encefálica de quem não vive na realidade do cidadão-comum - cidadão que atura, subsidiando-as generosamente e à força, tão iluminadas figuras e seus ensinamentos.

Sobre as criaturas que se entretêm a bloquear ilegalmente - pois que o fizeram ilegalmente - ruas (isso e práticas afins) torna-se difícil não encontrar afinal, e independentemente da sua exequibilidade, alguma legitimidade nas intenções recentemente atribuídas ao sr. ministro da defesa, e relembrar certos desabafos comuns há uns anos e que passavam por estadias formativas em Mafra ou Lamego: mas não para formar militares ou incutir valores de elementar civilidade, como parece ter estado, de forma certa ou errada, na mente do sr. ministro (coisa, desde logo, que no caso, e atentos os eventuais destinatários, parece absolutamente votada ao fracasso); antes para punir. De forma pura e dura.

Sobre o cabeça de lista e o seu partido, resta o consolo de saber que não é preciso militar ou votar naquilo para realista e conscientemente respeitar as pessoas, os animais e a Natureza. Já basta sustentá-lo(s).

05
Mai24

Abandonai toda a esperança.

Costa

O sr. primeiro-ministro entendeu hoje elaborar sobre a língua portuguesa. Fê-lo sob o título A língua portuguesa, um património de valor identitário e global e escolheu para tanto (ou para tanto lhe foi aí magnanimamente concedido espaço) a folha semi-oficial do luso wokismo, bloquismo, socialismo e outros ismos - igualmente sinistros - desde que, evidentemente, de esquerda e, sempre seguindo o patuá consagrado, solidários, inclusivos, decoloniais - parece que acarinham um tal conceito lat(r)ino-americano - e zelosamente empenhados em contribuir para a criminalização a seu tempo, urgente em todo o caso, de hábitos e supremas perversões que se impõe metodicamente cancelar, como esse de se ser branco, cristão e heterossexual e não sentir ponta de vergonha ou de culpa nisso e achando-o até, suprema heresia, normal. O Público, enfim.

Tem esse jornal como único mérito a prática, em manifesta extinção, de utilizar a grafia da língua portuguesa anterior ao criminoso e alegado "acordo" ortográfico de 1990. Esse mérito e o de um ou outro opinante que por lá subsiste, não se percebe verdadeiramente se heróico resistente no meio daquela fauna ou se idiota útil e por isso tolerado precisamente por essa mesma fauna.

Pois bem, nesse jornal, com essa louvável característica ortográfica, entendeu o sr. primeiro-ministro professar o seu estremecido amor pela sua língua-mãe grafando-a da forma ignóbil e ilegal como hoje nos é imposta (e imposta de forma ilegal, como sr. primeiro-ministro, ilustre advogado, douto jurista, não pode deixar de saber; pois afinal não o pode deixar de saber o menos aplicado dos estudantes de primeiro ano de direito).

A coisa é irrelevante, evidentemente. num país cujo povo esmagadoramente não lê, não quer ler, é orgulhosamente inculto e arrogantemente vaidoso da sua ignorância, ajoelha submisso a tudo ou quase o que lhe cheire a Brasil, ignora a sua História (e por isso vai vicejando o que se sabe) e vive para as vitórias do seu clube de futebol - essas impunes milícias de permanente pré-guerra civil -, as nádegas da namorada um jogador de futebol, os carros, barcos, aviões, mansões e golos desse jogador de futebol e a pornografia suave que lhe é gentilmente servida por algumas estações de televisão, ao serão, em família e sem ter que pagar assinatura.

Mas o texto de hoje do sr. primeiro-ministro, a sua forma e até o seu conteúdo - ou não fosse o partido em que milita o sr. primeiro-ministro responsável também pelo crime cultural em que consiste o AO90 - só pode levar a relembrar, dure o turno do sr. primeiro-ministro o que vier a durar, certa frase que começa com "abandonai toda a esperança..."

24
Abr24

Também tu?

Costa

Que o homem anuncie publicamente, revela a imprensa de hoje, o corte de relações com o filho, isso e a hierarquia dos netos no seu coração, é coisa para deixar o cidadão momentaneamente perplexo. Mas não surpreendido: faz parte do estilo "selfie" (que vai funcionando) e a vida continua. É o que é. A família (os outros netos, desde logo) entender-se-á e desejavelmente em privado.

Agora, aceitar também publicamente, revela-o também a imprensa de hoje, que o país tem que pagar pelos crimes (aos olhos de hoje, mas praticados - aqueles de facto praticados e como tal qualificáveis - há centenas de anos e regidos pelos critérios do tempo) da escravatura e massacres coloniais...

Deu em woke, é apenas legítimo considerar, o catedrático de direito. E sendo ele quem é na hierarquia do Estado, a coisa assusta.

20
Abr24

TVDE.

Costa

Vejo-os à minha volta, no pára-arranca inevitável da cidade, e lembro-me melancolicamente deles há ainda não muitos anos: impecavelmente lavados (por fora; dentro, irrepreensivelmente limpos e com a garrafa de água e os rebuçados - nem que como mera gentileza simbólica -aguardando o cliente). Conduzidos - serenamente conduzidos - por pessoas de aparência cuidada e sem formalismos excessivos. Apenas isso, que já é tanto, gente educada, lavada e, digamos, "bem arranjada".

Vejo-os à minha volta, agora, enquanto numa manobra de recurso escapo à colisão com que um deles, sujo e batido, num ziguezague frenético e de bem flexível interpretação do código da estrada (conhecê-lo-á, o nosso?), parecia apostado em brindar-me. Vejo-os à minha volta, enquanto regresso a casa, pelo caminho de sempre, e ocorrem-me estas memórias.

Reaccionárias, sem dúvida.

 

 

12
Abr24

Ditosa pátria.

Costa

A pátria (entenda-se, a imprensa - impressa ou não - e a opinião publicada) estremece convulsa, prolixa e largamente horrorizada, a pretexto da apresentação do programa do governo e da associada berraria parlamentar (e, não se ignore, de certo livro recentemente apresentado). Na rua permanece a propaganda eleitoral (a imensidão de cartazes), um mês - um mês completo - depois das eleições, enquanto a esquerda ocupa sofregamente o que ainda aí resta livre com inflamadas e panegíricas mensagens serôdias a pretexto do cinquentenário da sublevação militar de que expeditivamente se apropriou e da sanguinária tirania que, não fosse o que apesar de tudo se conseguiu fazer, nos teria generosamente legado.

Seria uma questão de higiene elementar remover atempadamente as primeiras e ter ultrapassado há uns bons anos a receptividade às segundas. Mas nem uma coisa nem outra.

Ditosa pátria (assim mesmo, com "p", por uma questão de decência).

09
Abr24

Identidade e família.

Costa

Identidade e Família, o nome de um livro ontem apresentado e que deixou em histeria moralista, de bizarra moral - incapaz de esconder ânsias proibicionistas ("cancelamento", parece ser por estes dias a designação consagrada e virtuosa) - a esquerda e a sua tão querida superioridade intelectual. 

Não é sequer necessário estar de acordo com o que nele deixaram os seus autores; poder-se-á até estar em frontal desacordo com alguns. É sim por um imperativo de apego à liberdade de pensamento e expressão - coisa que boa parte da esquerda, a mais vocal, sempre tomou como um mero instrumento e seu exclusivo privilégio, a negar categoricamente a quem não siga a sua cartilha, e a outra parte da esquerda sempre se dispõe a desvalorizar se tacticamente (nem de estratégia se poderá falar), lhe parecer conveniente - que se impõe comprar esse livro. Por isso e por ser afinal fácil antever, e isso em nada lhe diminuindo o mérito, que muito do que lá está escrito será coisa de cristalino bom senso.

Tem que ser assim. Ou não provocaria tão lancinantes acessos aos zelosos polícias das novas virtudes.

29
Mar24

Reaccionarismo pascal.

Costa

O novo cartaz do bloco de esquerda, a pretexto do 25 de Abril. Perfeito e evidentemente deliberado regresso aos idos de 1975 (obra de quem largamente nem era vivo ao tempo e claramente dirigido a quem não era vivo ao tempo), no grafismo de stencil de panfleto de faculdade desses dias - espécie de obra de jovem burguês universitário do tempo, de discutíveis hábitos de higiene e sustentado generosamente pelos papás ditos fascistas -, e na substância da "mensagem". Absoluto anacronismo a que só falta a imagem do Che. 

 

06
Jan24

Distopia

Costa

O ângulo, a fotografia feita de um reverencial plano inferior; o líder - só - dominando a partir do seu púlpito; o rosto fechado, solene e a que a barba acentua a severidade da expressão. Em fundo, atrás dessa temível figura - um outro "animal feroz?" -, a mesma composição na dimensão bem maior que a tecnologia facilita.Isto ilustrando, em dois jornais "online", certo congresso partidário que se por cá cumpre, por estes dias, com farisaica precisão litúrgica. 

Nada de novo. A História contemporânea está cheia disto. Um clássico, aliás, da ficção distópica. Leram-na, os delegados ao congresso? E tendo-a lido, entenderam-na?

12
Nov23

Os políticos

Costa

Os políticos não vivem no mesmo lugar em que nós vivemos, com as mesmas regras e os mesmos fins. O que nós achamos falso ou irracional, eles acham verdadeiro e lógico; o que nós achamos imoral ou indigno, eles acham com certeza conveniente e necessário; o que nós chamamos princípios ou moral (detestável palavra), eles consideram pretensão, irrealismo ou comédia. (Às Avessas, Vasco Pulido Valente, 1990; texto original de 1984)

O livrito (porque breve) foi, por um acaso, salvo do lixo, no "desmanchar" de uma casa cujo herdeiros pouca - se alguma - preocupação manifestavam pela biblioteca que se perdia. O fragmento acima é parte de um texto de 1984, incluído nessa colectânea que se começou a ler por estes dias. Antes, em todo o caso, dessa espécie de novo momento alto da longa ópera bufa - trágica, sobretudo - que a venal e nepotista ética republicana e socialista nos vem oferecendo impenitentemente. E tem, na sua extraordinária limpidez e precisão - sem uma palavra a mais, sem um dispensável adorno de desnecessária erudição -, tanto a ver com tudo isso e com certas declarações ontem solenemente vertidas às ignaras (e por isso mesmo) massas. 

Muita falta faz o Grande Ausente.

08
Nov23

A crise política e suas graves preocupações.

Costa

Nada de novo: nos sucessivos, imparáveis, torrenciais debates e comentários que nos são servidos pelas estações de televisão (no caso, SIC Notícias e CNN Portugal; a coisa não variará muito, decerto, no tempo que as restantes, generalistas, nacionais, dediquem ao noticiário), desde algures pela manhã de ontem, a grande preocupação - logo seguida pela sorte dos fundos do PRR (se vão ser aplicados, melhor, derretidos, ou não, porque sendo-o já se sabe que o serão pela insaciável coisa pública e sob critérios especialmente peculiares) - de boa parte dos preocupadíssimos comentadores, especialistas e politólogos é o efeito disto tudo sobre a proposta do orçamento do estado no que concerne às promessas a seu propósito feitas ao funcionalismo público e aos pensionistas.

Ou seja, as promessas de aumentos do costume aos destinatários do costume, para sossegar os do costume. Os que, a todo o custo, não convém irritar. Os que decidem eleições, ganhas por quem cai nas suas boas graças. Ou pelo menos no seu resignado apoio. O resto - os outros, os que vão pagando isso tudo, isto tudo - pouco interessa. Pode esperar e nada ter.

E, claro, como e quando se entender necessário, pagar mais.

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