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Sobrevive-se

Sobrevive-se

27
Dez20

Foi Natal.

Costa

Dois dias depois das celebrações, a mesma deprimente constatação de outros anos: lixo. Lixo amontoado pelas ruas, "ecopontos" a transbordar, sacos de lixo rasgados espalhando o seu conteúdo ao vento, elaboradas embalagens que se vão desfazendo. A insuficiência e demagogia dos poderes públicos e um povo porco, grosseiro, bruto, tenha ou não dinheiro, e para quem ordem e asseio só valem das portas para dentro (ou nem isso): estão bem, uns para os outros. Foi Natal. Numa cidade portuguesa, com certeza.

16
Dez20

Lá sabem porquê.

Costa

Nem será tanto a, digamos, peculiar prestação do dr. Portugal. O que autoriza todo o pessimismo é isso de crer, com sólida segurança, que muitos bons portugueses a escutaram com genuína devoção. Na paz dos seus domicílios, entre mais uma série televisiva, uma entrega de comida ao domicílio e a certeza que entre layoff ou teletrabalho (ou coisa nenhuma), o salário será creditado, na data devida, na conta bancária. E, num mau cenário, as moratórias tudo adiarão.

Até ver. Até um milagre.

Pantomineiros que nos tratam não como crianças. Nem como velhos tolhidos pela senilidade. Tratam-nos tranquilamente como mentecaptos. E lá sabem porquê.

11
Dez20

Da melhoria da condição física.

Costa

Ao bom cidadão português interessa, e muito bem, a sorte das equipas portuguesas nas "competições internacionais" (nem há que dizer de quê, pois presume-se com justificada tranquilidade que se sabe do que seja). Interessa-lhe isso e alguns pormenores - regular e abundantemente servidos - da anatomia da namorada do jogador, bem como os carros, iates e outras minudências da vida deste. Os milhões com que se transaccionam jogadores - é desnecessário dizer de que variante da prática desportiva (não de que "modalidade", pois "modalidades" é tudo o resto de que se fala depois de conhecida e metodicamente discutida a rotina do corte das unhas dos pés do jogador) - também o deixam, ao bom cidadão português, em salivante inveja e imaginação, e são objecto de estremecido cuidado diário pela comunicação dita social. A infinita desonestidade dos dirigentes dos clubes (disso que nem se tem que nomear) é coisa também capaz de inflamar o bom cidadão português. Sempre afirmando, rasgando as vestes, a bondade sem fim do "seu" dirigente e a irredimível maldade de todos os outros - usualmente perfazem, tudo visto, três -; mas como se fala de bola, tudo e todos ficam acima da lei. Enquanto permanecem "presidentes", pelo menos. E, uma vez mais, muito bem.

Haverá talvez alguma vanguarda intelectual; gosta pelo menos de se ver como tal. É muito selectiva quanto ao que mereça a distinção do seu pensamento. Fosse o morto às mãos da "autoridade", no aeroporto, outra coisa que não branco, presumivelmente convencional na sua intimidade e, é de crer, de matriz cultural cristã, reinaria por cá e por estes dias uma justiceira histeria infindável de protesto. Reinaria desde desde que se soube do sucedido. Assim, a coisa fica entre tardios mimoseios de políticos exigindo uns a demissão e negando outros a demissão. O usual em casos que tais. E com a usual inconsequência.

Há dias foi a vez das notícias quanto à menos feliz demonstração de conhecimentos dos nossos miúdos em matemática e ciências. O governo logo lançou culpas máximas e taxativas sobre um ex-ministro; o ex-ministro replicou indignado e com veemência: rituais próprios da coisa. Não difere muito do ritual de duelo oitocentista, em que um rasgão na camisa e umas gotas de sangue, provindas de um golpe menor, repunham a honra das partes, davam a querela por encerrada e verdadeiramente não havia nem vencedor nem vencido. Umas pessoas, é certo, falaram brevemente sobre isso na televisão; enquanto o bom cidadão português mascava, desinteressado, o seu jantar. E umas pessoas terão escrito sobre isso, nos jornais; em colunas que, privadas de sangue e de bola, uns apenas - dos poucos bons cidadãos portugueses que vêem na leitura outra coisa que não uma infinita maçada, muito justamente limitada aos já distantes e escassos manuais escolares (ou talvez nem a esses) -, terão lido. E encolhido em fatalista tédio os ombros.

Há muitos anos já, Alexandre Herculano achou por bem afirmar que "(O) erro deplorável dos adeptos de certa escola é desprezarem a distinção entre o progresso que influi no melhoramento moral e social dos povos e aquele que só melhora a sua condição física". E tinha razão. Sucede porém que o segundo progresso dá generosamente, parece, mais votos.

De modo que "isto dá vontade da gente morrer".

01
Dez20

Há-de ser isso.

Costa

A sábia Freitas, a diligente Temido e sobre elas e, pela Graça divina, todos nós, o Preclaro Costa determinam por estes dias, entre outras patrióticas pérolas, o encerramento às 13:00 dos hipermercados. Precisamente nas datas em que pela natureza das coisas (uma maçada, decerto "de direita") a afluência é fatalmente maior. Em vez de se espaçarem, as mesmas massas - que não têm outro remédio que fazer as suas compras nas datas em que as fazem - comprimem-se em filas para entrar (e que a respeitar os famosos dois metros de espaçamento teriam uma dimensão curiosa...) e frequentam, concentradas, nesse horário reduzido, o interior das lojas. Mas o vírus teme muito justamente os nossos salvíficos governantes e, tal como nos transportes públicos, não ousará estar presente nestas concentrações de obediente, agradada e submissa gente. Deve ser isso... Há-de ser isso. 

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