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Sobrevive-se

Sobrevive-se

29
Jan21

Muro do Caia

Costa

Admita-se, no confronto de um e outra será ao conteúdo que deverá ser dada especial relevância. Em regra, pelo menos. Mas sem esquecer a importância da forma, sobretudo em assuntos e momentos especialmente sensíveis. Assim o demonstra o passado recente da Pátria: ainda hoje há um tipo (Salazar será o outro) que tem, pela liturgia consagrada, culpa de tudo o que de mau aconteceu, acontece e longamente acontecerá. E parece que assim é, em razoável medida, por uma menos boa comunicação.

O ministro Cabrita, no seu usual tom de inflamado acólito do caudilho, brandindo o punho e elevando a voz em vibrante paroxismo de vanguarda revolucionária, cheia de certezas e detendo a Verdade, derramou ontem sobre as massas que seriam limitadas "as deslocações para o exterior nos próximos quinze dias de cidadãos nacionais, para os proteger e contribuir para a redução de contágios".

A coisa é um pouco estranha: perante os dados conhecidos da doença, no país, dir-se-ia que não seremos verdadeiramente nós, portugueses, a necessitar de protecção perante o estrangeiro. Não a ponto, pelo menos, de aceitarmos placidamente que seja o nosso poder a impedir-nos de cruzar fronteiras. E sob esse preciso argumento. Enfim, por analogia a coisa assemelha-se ao comportamento de alguém que, tendo feito grossa asneira, se demite, antecipando-se e evitando a humilhação de ser demitido (em todo o caso uma prática particularmente incomum entre nós; por parte do poder, desde logo, e apesar do sucedido já hoje e por iniciativa de figura da administração pública definitivamente não de primeira linha).

Seja como for, isso de proibir ou limitar a saída de cidadãos, "para os proteger", quando o mal extremo reside da fronteira para cá, tem qualquer coisa de fantasia estalinista. A mera geografia não lhe permite chamar "de Berlim", é certo.

Muro do Caia, talvez.

 

23
Jan21

O patamar da loucura.

Costa

SIC Notícias, há pouco, cerca das 20:25: batemos no fundo, ou, na verdade, ainda pode ser apenas lodo, o fundo estar mais fundo. Para ir ali, uns 150 metros, comprar um pacote de salada, tenho que levar um comprovativo de residência (a lavandaria é a uns 30 metros, mas a regra será decerto a mesma). E se a "autoridade" me decidir multar é bom que pague na hora, caso contrário haverá "majoração de culpa" e custas judiciais (esqueceram-se de dizer, se for condenado; mas no fundo, como sempre em Portugal, desde logo pelo conselho da submissa comunicação dita social, é melhor pagar...).

Eis o patamar da loucura. Ou será do fascismo? Ou do seu equivalente à esquerda?

 

 

 

22
Jan21

Nem umas cuecas.

Costa

Por misteriosas razões - invoca-se a protecção da concorrência e dos negócios que de novo foram forçados a encerrar (acredite quem quiser, e até onde quiser, na genuinidade dessa preocupação; haverá sempre a hipótese - entre nós muito pouco credível, é certo, tal a reiteradamente demonstrada excelência de actuação - da desorientação do poder, a da conveniência em aplacar a todo o custo justas iras ou desesperos - que nem por isso o deixarão de ser e de ficar por atender -, a da necessidade de apresentar serviço, nem que seja "em cima do joelho" e não pela imprevisibilidade e urgência da decisão, mas por incompetência; e a da demagogia, bem entendido) - frequenta-se por estes dias um hipermercado, local que tem na existência do português médio uma importância próxima ou superior há de um local de culto (ou de um estádio de futebol: outro local de culto), e depara-se com o encerramento de corredores e corredores de exposição de produtos.

Muito sucintamente, o português não pode (excepto recorrendo à compra "online", e não sei se a tudo) por estes tempos, e na verdade sem fim à vista, precisar de comprar, nem por situação imprevista e urgente, uma almofada, um cobertor, lençóis, um par de meias, uma camisa, umas calças, um casaco. Umas cuecas, enfim. É de crer que para o governo da nação o português médio é rico e hábil na informática, e é perfeitamente residual o número de cidadãos que em lugar de comprar roupa e calçado de marca, em lojas de marca, se tem que vestir e calçar com produto de gama baixa, de hipermercado. E também, é assim de presumir, o português médio gozará de sólidas reservas, e de alta qualidade, nos seus armários. O português médio não pode ainda - excepto se informaticamente literato e com algum poder de antecipação - comprar por exemplo um livro ou um brinquedo para oferecer numa ocasião especial, mesmo que aceitando em patriótica obediência deixá-lo no patamar ou ao portão. Só mesmo, está visto, e seguindo alta figura da administração pública, um frasco de compota (e até ver).

De acordo o livro, enfim, é de tudo o menos: hábitos de leitura, por cá, são o que se sabe. Mas uma cuecas...

18
Jan21

Não o sabemos merecer.

Costa

Esta manhã, num noticiário televisivo, perorou uma senhora com funções de responsabilidade no campo da saúde, no Algarve. Retive, creio, o nome da senhora, mas não a exacta designação das funções por ela exercidas. Nem isso importa, na verdade. Importa sim a atitude, a sobranceria, o usual, pronto e imoderado apontar de dedo - das pessoas investidas de alguma autoridade pública - ao cidadão comum.

Aliviava-se a senhora, entrevistada frente a um hospital de campanha montado em Portimão, da indignação que lhe ia na alma. A máscara impedia a percepção dos seus esgares, mas a voz não escondia o enfado (enfado, pelo menos, e usando de eufemismo). E era, é, de facto grave o caso: a senhora lamentava-se dos profissionais de saúde - donde, presume-se, ela - sistematicamente estarem privados de coisas tão comuns como poder ter algum tempo livre, de jantar com a família, de desde o início da pandemia não gozarem férias, de estarem esgotados. Alertava para a inevitável finitude dos recursos, desde logo os humanos, crescentemente empregues de forma insustentável. E terá razão, não se discute.

Curioso, ou nem isso, foi o apontar de dedo que achou imperioso fazer. E percebe-se que o faça: é sempre importante encontrar um culpado. Mesmo que inventado (e isto mesmo num país onde usualmente as grandes culpas morrem, muito convenientemente, solteiras). A terrível situação vivida, e que a manter-se o rumo das coisas, dizia ela, só pode piorar, deve-se afinal ao facto dos portugueses não ficarem em casa. Nada como uma explicação cristalina, simples, de patriótico maniqueísmo: a culpa é dos portugueses, porque os portugueses não ficam em casa. E o chato (enfim, aborrecido; "chato" é demasiado vulgar) é que por isso a senhora não goza férias, não tem fins de semana, não janta, imagine-se, com a família.

Ora bem, assim sendo eu, que tenho a felicidade de até ver ter emprego e trabalho, que não posso pela natureza do que faço recorrer ao milagroso teletrabalho e por isso tenho que sair de casa; eu que como ainda tenho emprego e recebo salário posso fazer compras, tenho que fazer compras, que abastecer a casa, as tais compras largamente feitas até há dias em estabelecimentos forçados, nos dias normais de maior afluência, a horário reduzido (donde a uma muito sensata, por estes tempos, aglomeração reforçada de clientes imposta pelo nosso tão diligente poder), eu sou aos olhos desta senhora, os olhos e julgamento de um quadro superior da saúde pública em Portugal, se não um criminoso - e será por pouco, e hei-de o ser, é questão de tempo - pelo menos uma besta irresponsável. Eu e milhares.

A senhora, dir-se-ia, segue - fiel funcionária pública, afinal - o pensamento do seu chefe, o sr. primeiro-ministro. Para este, alguns portugueses, ao não lhe prestarem a devida e incondicional vassalagem, lideram uma campanha internacional contra Portugal (quem não está connosco está contra nós, bem se sabe). Para aquela, temos um verdadeiro inimigo interno, um caso de terrorismo sanitário doméstico generalizado: as pessoas que não ficam em casa.

Quem nunca falha é o poder. Não o sabemos merecer, enfim.

14
Jan21

Da responsabilidade e da receita.

Costa

A acreditar na comunicação social, o sr. presidente da república (o "r" minúsculo não é lapso) terá afirmado que "nenhum país pode planear uma pandemia que aconteceu de repente". Isso, não desculpando tudo, percebe-se. Percebe-se e aceita-se no momento inicial, mas dificilmente quanto a vagas subsequentes. Todavia parece que essa impossibilidade é invocada, pelo Sr. presidente, para tudo. O estado (o poder) portanto, largamente desorientado, desculpabiliza-se. Em suma, investiga e julga a sua própria conduta.  E, muito naturalmente, inocenta-se. Reiteradamente.

Em paralelo, o estado duplica o valor das sanções pecuniárias pelo desrespeito das normas que o estado, desorientado, entende aplicar. O estado, bem se sabe, é insaciável e, tirando essa largamente ornamental e vácua figura da responsabilidade política, insindicável (menos ainda tempestivamente) e impune. E tudo - mesmo a desgraça - tem que gerar receita. Muita, se possível. Aí não há desorientação.

12
Jan21

Comfortably Numb.

Costa

O sr. presidente tem o vírus e não tem (percebe-se mal, é de certa forma como os referendos: repetem-se e repetem-se até se chegar ao resultado pretendido pela intelligentsia). O país não aguenta novo confinamento, afirmava há tempo o sr. primeiro-ministro, mas aí vem mais um e sob os auspícios do sr. primeiro-ministro (um pedido de desculpas, a admissão de um erro, a confissão de incompetência, o reconhecimento da inoperância, muito naturalmente, não lhe passam pela cabeça). Pois a culpa, claro, é dos portugueses. Só podia ser. Ou não afirmasse há dias o sr. presidente que - invoco de memória - um alegado pacto de confiança com os portugueses falhou (um pacto?, ninguém me pediu que assinasse o que fosse; o que me pedem - exigem - é que pague e pague e pague). Um povo de aldrabões, enfim, abnegadamente pastoreado por uma sacrificada plêiade que não sabemos merecer. Mas encontrado um culpado, evidentemente fora da plêiade, tudo está explicado. O que encerra o assunto.

A comunicação dita social, indecorosamente submissa (que já o era antes do que se sabe; e mais ainda o é depois), afirma que os portugueses se portaram mal pelo Natal e daí, por isso, vem o fim do mundo que nas próximas semanas muito justiceiramente se abaterá sobre nós. Aguentemo-nos que é muito bem feito.

Martelam-nos que há "doentes covid" e "doentes não-covid" (é uma linguagem - talvez, a linguagem - que os portugueses entendem): a grande divisão das coisas, apropriada num país que só conhece a linguagem da bola. De acordo com a qual, no desporto, há o futebol e há as "modalidades": aquilo de que nos ocupamos depois de exaustivamente tratada a menor das intriguices da bola. "As modalidades": isto é, tudo o resto no mundo do desporto e que em muito ultrapassa o futebol. Os "não-covid" que se danem, enfim.

É isto e vai ser isto. De modo que me apeteceu há pouco voltar a Comfortably Numb. Parece-me patriótico. É assim que nos querem, creio.

 

 

05
Jan21

No Teu Poema

Costa

E ao quarto dia foram as cerimónias fúnebres. Cheias da solene hipocrisia da coisa pública, o compungido cortejo dos inevitáveis: o presidente de câmara que pressurosamente declara oficial de Lisboa uma canção com letra de quem, parece, não pôde afinal militar no progressista Partido de sua devoção dada uma sua orientação pessoal, ou o actual secretário-geral do Partido prestando declarações ao frequentar uma basílica. O homem valeu - vale e valerá - pelo seu indiscutível mérito. Mesmo sendo compagnon de route e ainda que tenha dito, li algures por estes dias, ao secretário-geral do Partido, ao tempo (e que lhe provocava tanto estremecimento) que abandonaria o país se o Partido alcançasse o poder. De facto parece que toda a gente tem direito às suas contradições. Alguns, enfim, têm-no.

O seu passamento foi muito justamente credor da geral comoção que se conheceu. E também porque ele esteve, afinal, do lado dos vencedores (mesmo que formalmente tomados como derrotados) de Novembro de 75. E a História, bem se sabe, é a dos vencedores.

As cerimónias passaram. A historiografia consagrará o que entende, e como entende, de consagrar. A menina será moça, seja (e como ela está, a pobre menina). Mas outros escreveram também o que ele cantou, e menos lembrados.

Eu recorda-lo-ei sempre No Teu Poema.

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