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Sobrevive-se

Sobrevive-se

31
Jan22

Por um prato de lentilhas.

Costa

Um poderoso e inamovível clientelismo ganhou as eleições. Nada de surpreendente e, tudo visto, nem a maioria absoluta (pensando friamente e afastando ilusões que as últimas semanas potenciaram) será de estranhar. A vasta clientela eleitoral cativa, tudo somado milhões de dependentes por fatalidade, ou dolo, do estado - contente com o pouco que tem em troca do muito que lhe rapinam, não particularmente inteligente, não especialmente apreciadora de pensar, envelhecida na idade ou na mentalidade, sábia e metodicamente aterrorizada pelo hábil Costa, este repetindo à naúsea um discurso de chacina sobre velhos, funcionários, doentes e o mais que viesse ao caso, se não ficasse com ele o poder - apenas se uniu para preservar o seu estatuto. Medíocre que seja, mas seu e para já garantido, e que sentiram ameaçado. Torna-se evidente que a abstenção que desta vez o deixou de ser, deixou-o com um sentido de voto e de defesa do que se é do que se tem (imaginário que fosse o inimigo, ele - o inimigo - foi muito competentemente apresentado). A outra parte da abstenção desgraçada e largamente se manteve abstenção. 

Aquele que é verdadeiramente o Partido do Estado, enquanto o for, tem o sucesso (e o dos seus apaniguados) garantido. Deixará, ensina a História recente, de o ser quando a ruína para que nos atira - e de que mal se tinha ainda emergido - regressar. Deixará de o ser então, mas por não mas do que o indispensável tempo para que outros façam o trabalho sujo que o arrumar da casa e das contas exigirá. A memória do povo, o Soberano, é curta. E o Soberano, lá por o ser, não tem sempre razão. Este Soberano, demonstradamente incapaz de raciocinar para lá do mês que há-de vir - se for tão longe - gosta de promessas e resultados imediatos, mesmo quando lhe repõem (cantando-o como magnanimidade heróica) dez de rendimento e lhe tiram vinte de impostos de que ele se não apercebe (ou se quer aperceber). Para este Soberano, horas e horas de espera num hospital, os meses ou anos de espera por um exame, consulta ou tratamento, ou, na rua, Inverno ou Verão, na longa fila de espera num qualquer organismo da administração pública, para cumprir uma qualquer obrigação, provavelmente bizarra e fundamentalmente inútil para os seus interesses, e pela qual paga uma qualquer taxa de extorsão, mas crucial para justificar um exército de "servidores" públicos, o longo e ruinoso calvário de quem recorre à justiça, a repugnante tirania fiscal exercida sobre os fracos são algo tão natural como levantar-se pela manhã e ir trabalhar. É a vida, apenas: há momentos melhores e outros menos bons. "Faz parte", enfim.

O poder nas mãos, agora sem um freio, significa uns anos de ainda maior despudor, arrogância, desprezo, venalidade, nepotismo, iresponsabilidade e o mais em que é fértil o partido agora reforçadamente no poder. Esperemos - porque assim quis o Soberano - mais impostos, mais ineficácia da insaciável coisa pública, mais sobranceria do estado para com o cidadão. Que em todo o caso manifestamente já não é "cidadão": é "contribuinte", largamente conformado com o assalto de que é alvo (talvez até com medo de que este se atenue) e é "utente", manifestamente grato e satisfeito com a verdadeira esmola que em troca lhe é estendida. 

Gratos, portanto, por um prato de lentilhas.

24
Jan22

Do ovo, de onde provém e das elegantes analogias.

Costa

Ficamos então a saber que um político de excepção, um verdadeiro condutor de massas, alguém de respeitável solidez intelectual e devida gravitas, será aquele que recorrer a sólidas - e todavia tão cristalinas - argumentações como esta de exibir, perorando às massas sôfregas de uma luz que as guie, e sobretudo as dispense da maçada de pensar, um ovo e invocar a cloaca de que provirá. Fino, denso e lapidar. Credor sem dúvida de toda a confiança. E o Soberano, o povo, de quem uma parcela bradou no momento em jubilosa aprovação, tem muito certeiramente sabido apreciar a pastorícia que lhe vem proporcionando tal gente. Mais do mesmo, então, é que será bom.

 

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