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Sobrevive-se

Sobrevive-se

27
Fev22

De elementar boa educação.

Costa

Isto, este blogue, é de extrema irregularidade e perfeita irrelevância. E está muito bem assim. Mas mereceu um destaque no SAPO Blogs, a pretexto de velharias (chamemos-lhes assim, simplificando deliberadamente as coisas), tempos e experiências por estes dias decerto largamente desconhecidos por muitos que "postam" diária e abundantemente.

Outros tempos. Que talvez fosse bom não esquecer, ou ignorar. Não vá a História repetir-se.

Em qualquer caso, um destaque agradece-se. É de elementar boa educação.

25
Fev22

Distantes emissões de onda curta.

Costa

Lembro-me de o fazer, adolescente, em casa de meus pais, o volume do som baixo e, pelo sim pelo não, indo espreitar amiúde o patamar da escada. Não foi em eras remotas, onde tal prática até seria - será - consagradamente tomada como arriscado acto de resistência. Foi nos tempos insanos, criminosos e perfeitamente impunes do PREC. No tão cantado "Portugal de Abril", assim mandava a prudência escutar as emissões da BBC. Na capital e sua "cintura", pelo menos.

A prática estará em boa medida em desuso: os tempos são outros e também a tecnologia, largamente substituída pelos inúmeros canais de televisão e pela banalização e facilidade da internet e dos sucessivos "G" que por estes dias nos anunciam como colocando-nos instantaneamente em todo o mundo, ou todo o mundo no ecrã do nosso telemóvel. Mas essa facilidade é frágil, muito frágil como bem se sabe e os tempos recentes demonstram copiosamente. Os últimos dias, as últimas horas, aconselham talvez a que se compre um rádio-receptor de ondas curtas. Não vá o diabo tecê-las.

A liberdade noticiosa, a substância com que se forme uma opinião, pode vir a passar de novo, em grau não desprezível, por dispor de tecnologia analógica, quase centenária nos seus fundamentos e escutar, em maior ou menor clandestinidade (ou até nenhuma), distantes emissões de onda curta. 

E pode ser apenas meu pessimismo.

05
Fev22

Descansa em paz.

Costa

Há (mais) uma vítima silenciosa - e para o Soberano coisa em absoluto irrelevante - do império socialista que aí vem reforçado: a língua portuguesa e a sua ortografia. A resistência ao criminoso AO90, repugnante submissão a interesses inconfessáveis, ilegalmente imposto e cultural e cientificamente indefensável, era já coisa de gente tomada, sendo-se benevolente, como espécie de aldeia de irredutíveis gauleses. Coisa de ociosos anacrónicos e condenada a desaparecer pela mera passagem do tempo, pela submissa e acrítica obediência de quase toda a imprensa, que assim abdicou do privilégio e dever - de que se devia orgulhar - de ser local de culto da boa forma de escrever, bem como pela metódica multiplicação de fornadas de criancinhas formatadas naquela iniquidade e cuidadosamente desencorajadas, como seus pais, do hábito de ler e pensar. Mas havia ainda, mesmo muito ténue, a esperança de que um elementar bom senso pudesse num futuro não demasiado distante vir a prevalecer.

O único partido, ao que sei, em cujas propostas eleitorais expressamente se incluia o abandono do AO90 e o retorno à boa ortografia - e um dos partidos ditos fundadores da democracia (pós-1974) em Portugal - desapareceu do parlamento. Em paralelo o partido cuja excelência governativa nos trouxe onde estamos, e que foi por isso exuberantemente premiado nas urnas pela devoção do Soberano, não bastando ser associação que exalta dogmaticamente os méritos do caos ortográfico, parece agora pretender chamar às funções de segunda figura da hierarquia do Estado esse alegado expoente da filologia portuguesa que responde pelo apelido de Estrela. 

O futuro é pois do vale tudo desde que se perceba o sentido; e mesmo não se percebendo. E no parlamento, do que se pode esperar, nem uma voz soprará um ténue um protesto. Descansa em paz, língua portuguesa.

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