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Sobrevive-se

Sobrevive-se

18
Nov22

No Qatar ou onde quer que seja.

Costa

Eu não tenciono ver um só jogo, um só resumo, uma só das infindáveis noites de presunçosamente solene e estéril comentário - decerto várias vezes o tempo de jogo - que se lhes seguirão: manifestações exuberantes do poder nefasto do futebol profissional, essa actividade sinistra e repugnante, de que qualquer homem de bem tudo deverá fazer para afastar um seu filho ou filha, que intoxica e embrutece, com vivo incentivo e agradecimento do poder - dos poderes, pois que aqui não há virgens - de turno, todo um povo. Um povo que quanto mais estúpido, melhor.
Mas está tudo muito bem, pois o povo verdadeiramente gosta e quer que as coisas sejam assim. Para o povo e quanto a "direitos fundamentais" é de crer que a coisa se resuma a onde sacar o próximo subsídio, apoio, ajuda, isenção ou coisa similar: tão insaciável o poder, através do fisco, como o povo na busca do que lhe permita permanecer numa mediocridade que nem aurea é. Mas que, gostando como gosta de escarrar para o chão e mastigar animalescamente a sandes de courato, enquanto arrota a "mini" e insulta tudo e todos, lhe basta perfeitamente.
Mas não escaparei. Fatalmente, não escaparei ao verdadeiro bombardeamento massivo, implacável, repetitivo, a que todos seremos sujeitos nas próximas semanas. Com alguma sorte, Portugal é corrido daquilo rapidamente, em fase ainda inicial. Só nos faria bem.
No Qatar ou onde quer que seja.

(publicado como comentário, noutro blogue)

16
Nov22

Es alunes.

Costa

Com pendular regularidade as estações de televisão - talvez não tanto as portuguesas, largamente devotadas com zelo beatífico, por estes dias, ao serviço do incansavelmente abnegado poder de (longo) turno, à absolutamente crucial bola do Qatar, às luminosas e celestiais palavras de certo jogador da bola, e às sempre injustiçadas minorias nunca suficientemente idolatradas (ou seja: o serviço do poder de turno) - trazem à pacatez dos nossos serões as mais terríveis imagens, creio poder chamar-lhes assim, da fome e da doença: as das crianças de rosto emaciado para lá do que as palavras sabem descrever; as das mães em cuja vida o que creio será o pior, a morte - a morte lenta, cristalinamente previsível, horrivelmente penosa, a morte nos seus braços - de um filho, se terá tornado (mas não, decerto, para elas, as mães) uma mera e antecipada rotina estatística. Algures lá, mas não apenas, pelo Corno de África. Lá longe, muito longe, em qualquer caso.

Dessas crianças que por momentos enchem de culpa a garfada que sorvemos à mesa de jantar ou o conforto do sofá em que lidamos com o sono e a tremenda perspectiva da manhã do dia seguinte, nem todas afinal morrerão. Nem todas as que sobreviverão, felizmente, arrastarão sequelas gravemente incapacitantes. Mas muitas, é de temer, nunca escaparão a outra e também terrível fome: a do conhecimento, a da instrução. A do saber. E também por isso viverão amarradas à dependência de ajudas, de auxílios. Na permanente e irreversível condição de refugiados (ou coisa substantivamente equivalente, seja qual for a sua qualificação formal).

Por estes dias, por cá, umas dezenas de criaturas, bem alimentadas, bem agasalhadas, bem equipadas da tecnologia pacificamente tida como de primeira necessidade, dispensadas da preocupação quanto a qual seja (melhor: se, o que será e quando haverá) a próxima refeição; com a cama, a roupa lavada e o banho quente e diário (querendo-o, claro) garantidos, tem ante si duas possibilidades: aproveitar o privilégio - o extraordinário privilégio - de, o resto assegurado, poder estudar e com isso obter credenciais académicas que, a seu tempo, confiram reforçada legitimidade às posições mais temperadas ou mais radicais que entendam tomar; ou inventar uns pretextos para ocupar instalações públicas e faltar e obrigar a faltar às aulas, berrando uns disparates irrealistas que seriam risíveis se não fossem repugnamente ofensivos na sua formulação, uns, e em si mesmos, outros. A imaturidade e ingenuidade da adolescência, mesmo tardia, não explicam nem permitem tudo. Ou não deveriam explicá-lo nem permiti-lo. Será talvez uma manifestação de um culto setentrional, um culto gretiano, sinistro. Em todo o caso com vivo aplauso, até, de servis ministros do governo da nação.

Um culto, parece, pelo que se lê por aí, de "alunes". Alunes. Seja lá isso o que for, sendo certo que "es alunes" param as aulas (as suas e as de alunos e alunas), têm nisso a benção pressurosa do poder (o governamental e o da hierarquia escolar), seguramente não "levam faltas" (muito menos "chumbos") e a comunicação social, a noticiosa e a opinativa, largamente saliva, incontida, em êxtases submissos de adoração perante esses "es alunes". Perante eles e a cúpula de certa organização política que, embora sendo conhecida por leccionar a cátedra da desobediência civil em pueris acampamentos estivais, se limitou e limita, evidentemente, a louvar a decadência. Nada mais.

 

 

 

 

 

 

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