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Sobrevive-se

Sobrevive-se

01
Jul22

É fascinante.

Costa

30 de Junho, pouco depois das 23:00. Num canal televisivo de notícias - o primeiro, por cá, a apresentar-se com essa vocação - um trio de tudólogos e seu moderador peroram na sua rotina semanal. A certo momento, a tudóloga do trio encarniça-se contra o aeroporto de Lisboa. Afirma que a tragédia já esteve à beira de se consumar inúmeras vezes , recorda que há não muitos dias um avião teve que largar combustível sobre (horror!) Mafra, invoca o facto de na British Airways o aeroporto de Lisboa estar restrito, no que à aterragem concerne, a comandantes. Diz que por duas vezes, em voos da BA, com ela a bordo (solene privilégio para a empresa, decerto), a aterragem em Lisboa foi descontinuada. Em momentos, parece, de horror "terminal".

Não sabe, a senhora (muito naturalmente: é tudóloga, afinal, pode falar de tudo sabendo de nada), que o tal avião que "largou combustível" sobre Mafra o "fez" porque o trem dianteiro não recolheu após a aterragem e era impraticável atravessar o Atlântico com o trem nessa posição: por recolher. Mas que tudo o resto operava normalmente no avião (até o trem de aterragem; grave seria se permanecesse recolhido numa aterragem...). Portanto era, digamos, conveniente, regressar ao aeroporto de partida, aí aterrar normalmente e, depois da aterragem, apurar e resolver o que se passara. Para tanto convinha - convinha, mas não era essencial - que o peso da aeronave estivesse abaixo do peso máximo certificado para a aterragem e, por isso, a necessidade de consumir, de consumir, combustível. Consumir combustível para reduzir o peso da aeronave. Consumir, não "largar". Daí as voltas sobre Mafra (o procedimento tem tecnicamente outro nome, mas aceite-se esse de andar às voltas), durante umas horas. Uma entediante maçada, uma coisa ruinosa para a companhia de aviação, uma irritação para os passageiros a perder preciosas horas de férias nas caraíbas, mas não mais do que isso. E ainda que largasse combustível, este evaporaria no ar; não chegaria ao solo. Não sobre a forma líquida e apocalíptica que o tom de horror da senhora permitia antever.

Quanto a descontinuar aproximações, é um procedimento que ocorre diariamente em todo o mundo, em todos os aeroportos, pelas mais diversas razões. Não significa necessariamente qualquer avaria no avião, nem tem a ver necessariamente com o aeroporto em que ocorre: pode acontecer e acontece em qualquer um. Grave seria se revelando-se recomendável não fosse feito. Não é, não é, uma emergência (embora possa ser a resposta inicial a uma emergência). É coisa treinada à náusea na formação inicial e recorrente de um piloto. E aeroportos ou pistas restritas à operação por pilotos-comandantes são coisa não tão rara quanto isso (entre nós veja-se, desde logo, a Madeira que não suscita por estes tempos um erguer de sobrolho, quanto mais uma expressão de horror).

É certo, sobrevoa-se Lisboa para aterrar no seu aeroporto. Está longe de ser caso único e convinha, no caso, não esquecer porquê: a cidade cresceu selvativamente sobre o aeroporto, em imparável avalanche de construção civil (não lhe chamemos, por elementar decência, "urbanismo", pois ele é gloriosamente ausente) e décadas e décadas de negociatas seguramente inconfessáveis. Antes e depois de Abril de 1974; sendo certo que os estudos para um novo aeroporto de Lisboa vêm da década de 1960 e previam a sua abertura ao tráfego em 1978 (isto previsto no anterior regime). Desde então, sabe-se lá porquê, a coisa não anda. Embora renda, parece, facturações de milhões

Mas em todo o caso, para alertar sobre o problema do aeroporto de Lisboa, alguma maior solidez argumentativa seria bem-vinda. É fascinante o mundo da tudologia.

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